BibliografiaSelecção

Por Ernesto de Sousa

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Por Ernesto de Sousa

Sobre Ernesto de Sousa



Presépios, o Sol e Outras Loas

Lisboa, Bertrand

           

1985


Maternidade: 26 Desenhos de Almada Negreiros

Lisboa, INCM

1982


​A Pintura Neo-Realista Portuguesa

Lisboa, Artis

1965


Para o Estudo da Escultura Portuguesa

Porto, ECMA 
Lisboa, Livros Horizonte

1965
1973


Lima de Freitas

Lisboa, Artis

1961


O que é o Cinema

Lisboa, Arcádia

1960


Júlio Pomar

Lisboa, Artis

1960


O Argumento Cinematográfico

Lisboa, Sequência

1956


A Realização Cinematográfica

em colaboração com Adelino Cardoso e Fonseca e Costa, Lisboa, Sequência

1956






Da Vanguarda Artística em Portugal e do Mercado Comum

NOTA PRÉVIA POR CAUSA DOS EQUÍVOCOS

Antes de começar a minha conferência permitam-me uma explicação. Há cerca de 20 anos que ão faço uma conferência, em boa e devida forma, lida, etc., se exceptuarmos algumas comunicações a congressos ou reuniões com carácter científico. Tenho falado muito, talvez demais, colóquios com debates, etc. Tenho procurado o diálogo. Se agora volto ao estilo conferência e com o maior formalismo, é por razões bem precisas, e para lá dequalquer situação irónica, por coerência com o tema da própria conferência. Esse tema é de certo modo, como vão ver - uma apologia do objecto antigo, e da sua importância até nacional. Quis portanto que a minha comunicação a V. Exs. Se revestisse o mais possível das caraterísticas, ela própria, de um objecto o mais antigo possível, isto é o mais possível for a do tempo; nem diacrónico, nem sincrónico com nada, Numa palavra: anacrónico. 

Mas repito maisuma vez, alias tentarei justificá-lo no decurso da conferência, não vejam niso um jogo irónico de palavras. Precisamente irei justificar a anacronia como um valor possível.

Nestas condições, e como é óbvio, a conferência não será seguida de debate.

Também queria fazer um aviso. Nesta conferência, com raras excepções, fala-se em generalidade. Tudo o que eu disser de positivo, pode ser dirigido a um dos presentes. O que disser de negativo, ou que pareça tal, refere-se com certeza a outro.

…………………………….

Minhas Senhoras. meus Senhores,

    Em primeiro lugar quero declarar que a vossa presença me honra profundamente, não só pelo que me diz respeito, mas porque ela é a prova de que neste país Alguém ainda escuta Alguém. A comunicação ainda é um facto; quero também saudar a empresa que nos acolhe e que pode considerar-se como um símbolo daquilo que hoje muita gente se diverte a pôr em dúvida: a perenidade da ARTE, quaisquer que sejam os seus aspectos, mani­festações ou estilos; arte moderna, arte antiga, grandiosa
pintura mural, escultura de pôr em cima do piano ou jarrão... enfim tanto o edifício monumental como o objecto mais humilde podem acolher esse frémito de Beleza a que chamamos ARTE, e de que, de um modo ou outro, produzindo, criticando, vendendo, historiando, nós não somos senão humildes servidores;

  dispenso-me de saudar a AICA associação à qual pertenço. por um sentimento de modéstia que, espero, venha a ser compreendido por todos; de qualquer maneira já é hoje evidente o papel seguro que este organismo
desempenha no sistema em que vivemos e cuja resistência social. Económica, moral e espiritual, se vai afirmando emanta estabilidade. Enfim ... é por isso que eu estou aqui.

     Efectivamente foi proposto à AICA pela Dinastia, e pela Direcção da AICA a nós esta série de conferências com, evidentemente, inteira liberdade na escolha dos temas, e etc. Nada mais natural que se tenham aproveitado
as excelentes exposições desta casa para num caso ou noutro se proceder à respectiva promoção; é exactamente o que andamos a fazer há muitos anos, críticos, poetas e outros. Com os prefácios que escrevemos para os catálogos, por exemplo. Friso este aspecto para que não haja equívocos sobre uma matéria que se pode prestar a equívocos; quiçá para desfazer alguns que já porventura existem. .... Somente que eu - defeitos meus - quis ser mais ambicioso e assinalar a promoção em geral, o seu
significado e a sua importância precisamente neste momento da vida nacional. Devo, pois, fazer um parêntesis e tentar dar uma ideia, ainda que apenas aproximada, do que entendo por este Momento, agora e aqui, em que de facto se passa algo que devemos conhecer e reconhecer; algo de verdadeiramente promissor.

O que se passa?

Como sabem, a pintura e a arte moderna em geral foram durante muito tempo motivo de inquietação e escândalo. Quando Courbet era moderno uma imperatriz chicoteou-lhe um dos quadros. E entre nós, em 1916, quando Amadeo de Sousa Cardoso fez uma exposição no Porto houve alguém que não encontrou melhor ma­neira de manifestar a sua indignação senão cuspindo - cuspo evidentemente de indignação e espanto. São
casos extremos, mas não raros. Tenho muitas vezes   pensado no significado de tais cuspos, de tais chicotadas. Muito provavelmente os seus autores não eram nem valdevinos. nem contestatários. Pela contrário, eram por certo pessoas de bem e quase com certeza amantes apai­xonados do Belo,  da Arte,  do Ideal .. dessas coisas enfim. De outra maneira não chegariam a tais violências. Ora eu acho que a paixão merece sempre um certo respeito:  de Racine ao romantismo, de resto, não se tem exaltado nada, nem tanto, nem tão bem. Eram certamente pessoas apaixonadas, muito provavelmente honestas, bem colocadas socialmente (uma pelo menos era imperatriz!) e sabedoras, convencidas da verdade, da sua verdade. Está claro. Hoje nós sabemos que essas pessoas não tinham razão, mas fosse-lhes lá dizer nessa altura que não, que duvidassem… apanhávamos algum cuspo ou chicotada. E estas certezas, esta sinceridade, em todo o caso ... sempre lhes tive um certo respeito. Como tenho respeito pelo individuo que ao meu lado assobia e pateia o espectáculo que eu estou a aplaudir. Bom. Mas voltemos à pintura. Este escandalo, esta indignação têm a sua história. Ainda não tinham deixado de espantar os narizes e os olhos fora do seu lugar na pintura de Picasso e já um critico francês fazia contas à sua boa consciência e declarava: "A pintura não se vende. a pintura está salva”. Hoje a pintura vende-se, como V. Exªs sabem, mas anda há muito escândalo, pelo menos em longes terras. Ainda em 1970 em Colónia, durante a manifestação "Happening e fluxus” se fez um abaixo-assinado para expulsar um dos promotores do chamado Grupo Activista de Viena. A pintura propriamente dita… é que já é raro, sobretudo entre nós. E muitas vezes me tenho deliciado a pensar: Quem sabe se não terá sido o filho, ou o neto, ou um próximo parente do sr. que cuspiu num quadro de Sousa Cardoso quem terá oferecido 1000 contos, e depois 1700, por outro quadro, talvez o mesmo, do mesmo Sousa Cardoso? 1700 contos? E porquê? por gosto, por uma paixão idêntica em intensidade à do seu provável parente?
Nós não sabemos. Há poucos estudos nesta matéria, ainda lá não chegou, pelo menos com rigor estatístico e com estudos prospectivos de mercado, a sociologia da arte, ou outra disciplina equivalente. Uma coisa é certa, a pintura moderna em portugal (e não só) deixou de incomodar, já não inquieta ninguém, nem cuspo nem chicotadas. Modernos o que quiserem e como quiserem - o que é preciso é terem cotação e não se afastarem muito do quadro de cavalete, e do pincel ou seus equivalentes. Naquelas duas dimensões da tela façam lá o que muito bem entenderem!

    Ora isto reveste-se de um grande significado, tem um altíssimo teor espiritual que não podemos deixar de assinalar: significa que os pintores «modernos» deste país não só deixaram de escandalizar as pessoas de bem como ainda se transformaram em produtores de bens para o bem dessas pessoas. É o entendimento: uma bondade geral. Os pintores modernos voltaram-se agora (ou voltaram-nos) para o lado dos valores sólidos. É um facto. Cotações mais sólidas até que as do dólar, que ainda há bem pouco tempo era reputado pela sua solidez.

   Nesta conjuntura deve mencionar-se, entre as pessoas de bem e os novos produtores de bens, a existência e o papel importante de um factor intermediário,  consti­tuído  por aqueles a que podemos chamar os mediadores: críticos e marchands. Antes porém de abordar este sector, eu não queria deixar de assinalar algumas sombras naquela quase perfeita harmonia, quase santa alianca. Neste fim dos símbolos vividos (fossem eles cuspo ou chicote), neste remansoso consumo de signos, há uma nódoa.

   E é o caso que alguns artistas no todo ou em parte alheados da sua função de produtores de bens (de consumo luxuoso), desintegrados ou ainda não perfeita­ mente integrados naquela paz geral, naquele entendimento tão acidentado e dificilmente atingido, andam por aí fazendo coisas, esboçando atitudes ... que nem só se mostram dificilmente consumíveis, digeríveis, como até trazem em si o gérmen de uma perturbação, e revisão de valores que, francamente, não sei como classificar… Chamam eles a isso anti-arte, não-arte, contestação e outras coisas assim. E desprezando o quadro, a tão enfim consagrada tela pincelada, expõem ou manifestam coisas absurdas: lençóis, brinquedos, canas, caixas vazias, am­bentes, meros projectos ...

   Bom, as Senhoras e os Senhores que me ouvem ficaram com uma ideia. Alguns destes artistas, ou operadores  estéticos como alguns pretendem ser classificados, preocupam-se com a problemática da obra aberta, a participação e outras coisas. Parece andarem sempre na cabeça com qualquer coisa como aquele verso de Mallarmé: «Gloire du long desir, Idées».. Bom, mas é lá com eles. Alguns terão a mania da originalidade e querem imitar o que se faz lá fora, quando afinal conforme eu tenho estado a explicar a V. Exas.,  nós cá temos de tudo para fazer um mundo fechado perfeito; ou perfeitamente fechado, como quiserem. De resto, é bom de dizer-se, e tranquilizador, alguns dos responsáveis por estas atitudes, embora portugueses, vivem no estrangeiro. Não passam portanto de «estrangeirados»… Aos outros não faltará quem os critique legitimamente repetindo a justa observação de um coronel, aqui há muitos anos: «Isso já foi feito!» «Já está ultrapassado!» Ou ainda: «C’est du bricolage!», como dizia ainda não há muito uma pintora ilustre. Deve no entanto observar-se que estas revoltas, estes assomos nem sempre são tão associais como possa parecer. Podem muito bem vir a servir, e algumas já vieram a servir como operações ou expedientes promocionais: o artista ou lá o que é, faz anti-arte e depois pinta mais uns quadros dentro das regras e do consumo.

     Tudo entra na ordem. Por outro lado também pode constituir mais um escape para evitar a super-produção. Não devemos porém esquecer que isso é uma solução marginal. Se continuarem a honrar-me con a vossa atenção, eu é que vou propor a verdadeira solução, geral e vocacional. 

    Antes de prosseguir, permitam-me uma observação. Nesta sociedade toda a gente tem que vender alguma coisa para sobreviver, nem que seja a sua força de tra­balho. Não é vender ou não vender que está em questão. É o bom entendimento de uma sociedade funcional. Dentro desta ordem de ideias, quem sabe se aquelas investigações, aquelas procuras não poderão, não poderiam encarar-se de outro modo? Bom, mas não é isso que me proponho fazer aqui, voltemos à conferência.)

    E retomemos o fio, rodeada esta nódoa, no ponto em que o deixámos: a harmonia entre os produtores de bens (artísticos) e as pessoas de bem, de bens portanto, e o seu equilíbrio através de críticos e marchands …

   Falemos, pois, do factor mediação: críticos e marchands. Dispenso-me de fazer o elogio da crítica de artes plásticas em Portugal, e agora não é por modéstia.  É simplesmente para não perder tempo com coisas óbvias: é um sector da vida cultural portuguesa que se distingue claramente pela sua boa organização e eficiência e aquele mínimo de nível (muitas vezes máximo) que estas coisas exigem. Mas devemos confessar: é uma crítica que não
critica - no sentido vulgar - e errado, da palavra crítica. Em termos correctos: não é uma crítica polémica. Ou pelo menos deixou de o ser. Não tem luta própria: a sua luta (promocional) é a dos outros. Mas é preciso compreender porque se chegou a este ponto: quais as limitações e obrigações que reduziram a este cariz, uma luta, por outro lado tão esforçada. A crítica de arte em Portugal forjou-se no após querra no meio de desistências ideológicas e mediocridades de trazer por casa. Para se manter lúcida restava-lhe a mais inglória e descolorida das lutas: a luta pela qualidade. (Melhor diríamos, a luta pela qualité, porque a sua formação cultural francesa muito a ajudou nesta tarefa). E nessa luta, sim, foi e é valente, podendo-se dizer que está agora a ser coroada de êxito. As vagas polémicas do passado, neo-surrealismo/surrealismo, figurativismo/abstraccionismo ... de pressa se revelaram como fanadas flores de alecrim, de manjerona. Vanguarda? Poética? Valeria a pena lutar por conceitos ou poéticas às quais não correspondiam razões íntimas e profundas? Para empregar uma  imagem de Joseph Kosuth - um dos sacerdotes dessas novidades que nos soam sempre como alheias (refiro-me à arte conceptual) - as relações entre acríticae os artistas fazem pensar exactamente numa espécie de tiro aos pratos. Um servente atira os pratos, e o atirador, pontaria e fogo! Só que entre nós os papéis alternam: umas vezes são os artistas que atiram ao prato fornecido pela crítica; outras, são eles que dão a deixa. Num caso e noutro, só a pontaria conta. E à parte alguns erros de pontaria (dizia-se por exemplo: «acertar o relógio pela hora Europeia» quando a hora europeia já estava pela hora da morte). não há dúvida que os resultados são
concludentes: a pintura portuguesa é, artesanalmente (portanto, poética à parte), uma pintura de grande quali­dade. E é por isso que os interesses dos artistas e dos críticos se identificam; diria mais: se confundem. Durante um tempo foi moda os artistas ignorarem os críticos que tanto estavam a fazer por eles. Isto porém não era ingratidão, era uma espécie de etiqueta ao contrário. uma regra de mal-conviver. enfim. uma simples afirmação de classe.   Hoje só por um modismo cultural ultrapassado e trôpego ou uma qualquer má consciência, essas atitudes podem ser entendidas. Mas isto passa. está a passar. E as razões são ainda mais profundas como veremos adiante.

   É num sentido idêntico que podemos encarar a acção conjugada dos marchands. O marchand veio de fora dos grupos constituídos com seus disfarces e modismos  culturais, não tinha mesmo nada que ver com despidas de mitos efémeros. Quase me apetece fazer aqui o elogio destes homens e destas empresas que num país de alecrim e manjerona, souberam optar pelas realidades práticas, farejando ou intuindo o caminho certo. Foram eles que deram confiança à maior parte dos compradores, estabelecendo um circuito de valores sólidos - sempre no plano mundanal bem entendido. De resto, tiveram o mérito de nunca voltar as costas ao trabalho dos críticos sérios. E efectivamente, no que diz respeito aos valores espirituais, nós críticos, nunca lhes faltámos. Uns com esta água. outros com polémicas e contribuiu de modo decisivo para impor as acções necessárias, outra, os moinhos do espírito nunca deixaram de correr no espaço «marchand». (Como esta mesma conferência pode testemunhar!) Podemos dizer que a nudez forte do comércio tem sido sempre coberta com o manto diáfano da crítica.

   Enfim, também as relações críticos-marchands, como as relações artista-crítico tendem à harmonia. Com o terceiro lado deste autêntico acordo temos uma ilha­ -harmonia que voga incólume num tempo anulado. Mas isto é que é um erro: a hora, já não digo da Europa, mas do Mundo ocidental, continua a soar. Lá iremos.

Assinalemos ainda como são obsoletas certas ideias oitocentistas que ainda há bem pouco rodeavam a noção de marchand. Os marchands são mediadores (como os críticos) de uma realidade que os transcende. E essa realidade também não são os artistas ou os compradores da suas obras. Se pensarmos numa empresa, e numa empresa moderna é que teremos uma ideia da realidade a que me refiro. E precisamente nenhuma empresa moderna sonharia em passar sem os seus chefes de publicidade ou propagandistas (que são os equivalentes aos críticos em matéria espiritual), ou os seus «public relation men» (que correspondem aos «marchands»). Por isso a ideia dos «mar­chands» a explorarem os pobres dos artistas é uma ideia que faz sorrir como as flores murchas que caem das cartas dos nossos avós. Eu até seria tentado a dizer o contrário: que os críticos e sobretudo artistas é que exploram os marchands. Mas isso também não seria verdade. De facto a própria ideia de exploração é uma ideia oitocentista, que casava bem com o primeiro capitalismo e até com o pré-capitalismo. Agora, à medida que caminhamos para os diversos capitalismos de estado. e numa sociedade altamente industrializada e computarizada, a todas essas ideias antigas
se substitui a ideia de função. A sociedade tradicional agarrada a símbolos e afectos patriarcais, inamovíveis; sociedade autoritária e hierárquica, abre-se sistematicamente numa sociedade funcional (que certamente é outra forma de fechamento, mas isso é uma questão a deixar às consolações dos futurologistas). Aquilo que observamos são os temas reguladores de complexos afectivos e normas morais serem substituídos hoje pelos mecanismos de uma sociedade objectiva; melhor: objectual e serial. Nesta ordem de ideias, artistas, críticos e «marchands» equivalem-se funcionalmente. E, de facto (do ponto de vista do valor, pelo menos) a sua diversificação é inessencial. Os artistas trabalham para o mercado, são verdadeiros marchands; os marchands assumem com não pouca frequência um resto de espírito de Aventura, como verdadeiros artistas; e os críticos. directa ou indirectamente participam das duas categorias. É o tiro aos pratos a 3, confusão entre o 2 e o 3, que só a argúcia numerológica do nosso amigo Rodrigo seria capaz de distinguir ...

     Diga-se de passagem que a sociedade actual não é só dominada pela série. A série supõe sempre um modelo efectivo ou vocacional: limite. É um assunto que tem sido abordado por estudiosos de grande profundidade
como Vance Packard, Jean Baudrillard, Dichter au Lewis Mumford, por exemplo. O panorama que estou traçando corresponde à generalidade: e a generalidade obriga-nos a constatar que a pintura portuguesa ao mesmo tempo que se elevou qualitativamente, pintura de qualidade, se tornou serial referindo-se quase sempre a modelos que lhe são estranhos. Adiante mencionarei os casos que poderiam ter sido modelares entre nós e foram perdidos, u estão a ser perdidos. Mas isso não afecta as realidades
funcionais. O mercado português por exemplo é sólido, e até ignora alegremente os tais modelos estranhos. Volta-lhes as costas: pois se nós temos cá disso! É uma situação que faz lembrar a do imitador: imitava tão bem um porco, que quando um dia apareceu um engraçado com um porco autêntico foi vaiado e corrido do palco. É por isso que a pintura estrangeira tem mau Mercado em Portugal. Preferimos a imitação. Quanto ao consumo estrangeiro ele pode ser-nos muito útil e é disso que falarei adiante. Proporei soluções, que afinal ainda corresponderão a fases intermédias: aquelas em que podemos fornecer uma espécie de anti-modelos. Depois se verá.

     No entanto nós, aqui em Portugal, estamos numa fase demasiado        empírica... e como  efectivamente tudo se passa dentro de certos limites do mercado temos que atender às leis deste; e rechaçar aqueles individualismos marginais que podem contrariar a boa harmonia do conjunto. Dou um exemplo, elementar em qualquer economia de mercados: a superprodução. Como conjurá-la, ou melhor, organizá-la, canalizá-la? Tentarei responder a esta pergunta. mas antes porém teremos que abordar estes ssuntos com outra amplidão.

     Como sabem, na Europa desenvolvida e nos restantes países do chamado Mundo Ocidental – que, natural­mente, vai da América do Norte ao Japão; enfim,  nos países de economia capitalista ou neo-capitalista. cada vez se pinta menos ... pelo menos com o pincel e seus derivados. A tendência é mesmo para uma arte não­-objectual, passe o neologismo (non object art au post-object art). Poderíamos traçar com precisão, por  exemplo, os caminhos que se percorreram de uma arte minima (minimal) à arte pobre, à arte do corpo próprio (body art), à arte ecológica (land art), a arte do comportamento, por um lado; e por outro, à chamada arte conceptual, arte de sistemas (software, computer art), etc. Poderíamos também abordar os problemas do construtivismo e da arte cinética, enfim de uma arte que se confunde cada vez mais com certa transcendência tecnológica; ou abordar a descrição da via lúdica e dialogal, com citação dos movimentos «happening», «fluxus» e outros. Mais: fala-se até de fim da arte. A morte da arte, que já teria sido anunciada, v.g., por Hegel. Para não nos perdermos com delongas, permitam-me que faça neste ponto tão controverso, uma citação, um pouco longa, mas muito sintética dum conhecido teórico italiano, Argan, professor e tudo.

Diz o professor Argan:

«As técnicas artísticas, as artes (pintura, escultura, arquitectura) são processos de valorização ou idealização, por meio dos quais se decanta ou isola o valor - valor de facto disjunto dos termos baixos e vulgares - custo, preço, cotação - os quais precisamente, na contingência mundana, no mundo inferior da prática, são utilizados para designar o valor. Substancialmente as técnicas artísticas não são dissemelhantes das técnicas habituais do trabalho humano. Com efeito a arte constitui o momento terminal e supremo, transcendente, do trabalho humano; o trabalho do arquitecto não é dissemelhante em subs­tância, senão em grau, do trabalho de um comum cons­trutor, o mesmo se podendo dizer do trabalho do pintor
relativamente ao trabalho do pintor de construção civil, do trabalho do escultor, relativamente ao do carpinteiro ou do ferreiro. As técnicas da arte fazem parte do sistema tecnológico geral, é um facto: mas elas designam e realizam a finalidade ideal daquele trabalho, em suma constituem um modelo. É esta a razão por que a arte, durante toda a sua história, aparece intrinsecamente ligada ao sistema de produção económica, artesanal, de que representa o nível mais alto, a que chamarei «projectual» e metodológico: quer dizer, aquele onde o factor prático, quantitativo, se reduz a zero (o que corresponde ao unicum da obra de arte), e onde o facto ideal, qualificativo, tende para o infinito, para o absoluto.

Ora sabe-se que o sistema cultural onde a arte tinha uma função essencial, espécie de charneira, terminou o seu próprio ciclo histórico: o sistema industrial sucedeu e substituiu o sistema tecnológico do artesanato, a tecnologia industrial foi gerada pela economia capitalista - e esta muniu-se de um aparelho de poder político e conforme às suas premissas, recusa ao trabalho humano a responsabilidade e a compensação da obra. De futuro o valor desta só poderá avaliar-se em termos de cotações e preços. Esta é a causa objectiva da crise da arte. De facto esta verificou-se sobretudo no domínio técnico, como crise dos processos qualificantes numa situação que, dominada pelo industrialismo, apenas legitima os processos quantificantes. Esta crise manifesta-se também como uma separação nítida ente o artístico e o estético.»

Em seguida o Prof. Argan interroga-se para saber se é apenas a arte que é posta em crise - «como um conjunto de técnicas irredutíveis à tecnologia capitalista»; ou se é também a estética que é posta em causa, para concluir a favor da «projectação» (desculpem outro neologismo) estética. O problema podia ser posto noutros termos. Falar não só das causas objectivas como das subjectivas, etc. Mas uma coisa é certa, e em resumo: o fim da obra de arte de tecnologia artesanal nos países em via de
grande desenvolvimento. Isto é, nos países onde se concentra um maior capital consumidor. Veremos adiante a importância que isto tem para nós.

    Comparativamente a esta situação o que se passa em Portugal? Em que consiste aquela florescente produção de bens (artísticos) a que antes fizemos referência? Pois cada vez se pinta mais e mais, e não há dúvida nenhuma, num certo sentido, melhor. A «arte de bem pintar a toda a tela» mostra-se robusta, descobre raízes, mercado próprio - e até uma tradição: já se vai para aí na 5.a ou 6.ª «geração» ... Baralho-me um pouco nestas contas ... Certas tendências mais singulares nas gerações anteriores como o pre-conceptualismo de Almada Negreiros, ou aqueloutro, tão diferente, de Joaquim Rodrigo. passaram como esqui­sitices e foram desatendidas como modelos; e agora é uma euforia, pinta-se, pinta-se, pinta-se... Descobrem-se e exploram-se todas as correntes europeias ou americanas dos anos 50 para cá; passa-se do abstracto para o figurativo e do figurativo para o abstracto; reinventa-se a pop, passa-se desta para o «hard-edge». volta-se atrás, da «post-painterly abstraction» a uma pintura de novo «painterly», do «minimal» ao neo-dada (à Rauschenberg), e por aí fora. Tudo o que pode ser pintura de pincel ou à pistol, com uma ou outra incursão na fotografia e na sua aplicação serigráfica, nos seus aspectos mais artesanais e «obra única» (o unicum a que se refere o prof. Argan) é explorado até à exaustão. Todos s caminhos (em sentido contrário se for preciso) da pintura ocidental, 
numa verdadeira arqueologia de que foi o «moderno» até 1968 - ano tópico também nestas coisas e nem vale a pena dizer agora porquê. Tudo isto, insista-se de passagem, com uma qualidade artesanal crescente indiscutível, preciosa, às vezes rara até (... com o tal frémito de beleza, enfim). É de resto um estado de coisas para o qual nós críticos, como já disse, temos contribuído responsavelmente: vejam-se nomeadamente os tais prefácios de catálogos de exposições. Podia fazer-se uma montagem de textos verdadeiramente sensacional plena de optimismo sadio e nacional. A crítica de resto está organizada e cada vez mais se evitam os inevitáveis passos em falso. Do lado marchand algo de semelhante ocorre: passos seguros, alguns passos em falso. Claro que há fugas, marchand piratas que vão aparecendo no mercado ao mesmo tempo quadros falsos, roubos e outras
manifestações de vitalidade. Com tudo isto o consumo vai-se orientando, embora às vezes com grandes disparates, compras astronómicas em estilo «neo-liberty», confusões de exotismos, etc. Mas mesmo assim, o consumo vai-se orientando num sentido sólido, é um facto.

Ora este panorama parece estabelecer uma barreira entre a nossa produção e as necessidades dos tais países desenvolvidos e compradores a que me referi. É um erro total, e é neste ponto que tenho algumas propostas positivas a fazer. Há aqui uma inversão dialéctica a encarar, onde - como diz o povo - certos males vêm por bem.  Veremos que neste sentido, quanto maior for o abismo, cá e lá, melhor, muito melhor. Nesse diferendo devem jogar os artistas, os críticos, os «marchands» e os artistas­ -«marchands», os críticos marchands e os marchands-artistas para precisamente sairmos do tal círculo nacional que um dia se pode verificar estreito: e, numa palavra, encontrar novos mercados.

Vejamos calmamente até onde pode ir a nossa análise e tentativa de definição desse diferendo operacional, digamos assim. Há pouco mencionei a confusão dos exotismos. Referia-me claro à promoção de certos valores ultramarinos que se fizeram entre nós nos últimos tempos - a título exótico. Foi um erro: a pintura-pintura portu­guesa é que sendo «moderna» segundo a descrição anterior se pode tornar exótica e por isso necessária para um mundo evoluído altamente industrializado. Vejamos como uma análise correcta desta matéria obriga-nos a ponderar o objecto antigo (de arte ou não), o objecto exótico ou primitivo, o objecto artesanal em geral: e a sua função numa sociedade crescentemente invadida por objectos altamente funcionais e produzidos em série, abertos a uma utilização cada vez mais despida de qualquer signi­ficação tradicional, simbólica ou sagrada. A uma sociedade de mitos efémeros e consumo rápido, precisamente uma sociedade que se reduz cada vez mais a esses objectos descarnados e obsoslecentes. Digamos desde já que nesta sociedade se equivalem o antigo, o exótico, o artesanal: são termos de uma mesma distância, são o mesmo sinal de uma origem (um tempo perdido) que outra curiosa inversão dialéctica - ansiosamente se procura re-ganhar. Quanto mais produto da tecnologia moderna e industrial é o ambiente que nos cerca mais há necessidade de adicionar às nossas casas e ambientes assépticos e funcionais, estes sinais da Origem e da Autenticidade (da Mãe e do Pai, como diriam psicólogos e fenomenólogos), ao ponto de existir actualmente um autêntico mercado negro do antigo, com roubos organizados em igrejas, conventos e tudo. Isto só é comparável com o que foi durante a Idade Média o culto e o mercado das relíquias, e durante a Alta Idade Média o culto dos objectos com inscrições gregas que, de reste. signifi­cativa e comparativamente, ninguém já era capaz de ler. Relíquias - eis uma palavra a reter. Naquilo a que os especialistas chamam a aculturação urbana cada vez mais há necessidade de relíquias. Nos países em que predo­mina a economia de consumo tende-se a consumir tudo, inclusive o passado (ou o exótico, ou o artesanal ... vem a dar no mesmo). O próprio turismo é em grande parte orientado segundo estas necessidades: por isso alemães e americanos invadem países como a vizinha Espanha, vão ao passado.

Ora bem, é aqui que importa retomar o fio das nossas anteriores considerações: o passado pode ser um passado recente, estas coisas verificam-se mais numa ordem sincrónica do que diacrónica: ou elementarmente numa ordem diacrónica a dois tempos. Antes e depois. Antes e depois desse ano abismal e profético que foi 1968. Antes e depois da sociedade tecnocrática se ter imposto definitivamente com seus computadores, mass media e um novo tempo a reverificar tudo, conceitos e coisas.      Em resumo só há dois tempos: um tempo Antigo, e Hoje (claro refiro-me agora ao Hoje nítido desses tais países, em que nada disto deixa lugar a dúvidas). São esses mesmos países que se vão tornar ferozes importadores de pintura-pintura, pintura artesanal porque - precisamente - por um processo interno e irrecusável deixaram ou deixarão de ser eles, produtores. Isto é uma verificação tão dramática e real que nesses países se tem feito já em certos sectores todo o possível para reanimar a produção artesanal (isso explica - mas só em parte - o chamado hiper-realismo, ou realismo fotográfico, ou realismo capitalista. que é uma pintura também toda feita a pincel … coisa de resto suficientemente complicada para nos de­ termos agora nela). Mas o processo é unívoco e o momento único. Todos sabemos o partido que souberam tirar desta conjuntura países como a Finlândia, no sector dos objectos de uso corrente: em termos paradoxais mas legítimos: a industrialização do artesanato. E hoje todos os países avançados importam ou imitam objectos arte­sanais finlandeses, que fazem tão belo efeito entre as máquinas de lavar eléctricas e os isqueiros electrónicos, ao lado da televisão a cores ou do fogão por micro­-ondas, do mini-computador, do mobiliário por peças destacáveis. E não só bonito efeito, também sinal de origem, garantia de autenticidade, a Mãe e o Pai. Exactamente a mesma função que vai, por exemplo, desempenhar um quadro «hard edge», para não citar uma pintura ainda feita ontem e à mão em estilo tão deliciosamente surrealista dos anos vinte: um sinal dos tempos; melhor: um sinal do Tempo, um teatro da Origem, do Mito da Origem..

Ora, quem pode produzir, e abundantemente, os actores de tal teatro?

Com tudo o que já referi antes e as Senhoras e os Senhores que me escutam sabem muito bem, ou mais ou menos bem consoante a respectiva experiência, a resposta não tem qualquer mistério. Nós, agora e aqui, estamos em condições excepcionais para produzir tais actores, tais relíquias. A consolidação do mercado interno juntamente com uma tradição rara (onde se contam sucessivas gerações, com ou sem emigração, a lutar contra ventos e marés); a persistência ainda de um fundo artesanal importante na nossa vida quotidiana, explicam e justificam a qualidade da pintura-pintura, ou pintura­ -pincel que se faz crescentemente entre nós. De tal maneira que por vezes nos assaltam certas dúvidas; por exemplo se não se estará em certos casos a exagerar quando ao mesmo tempo se suscitam velhas glórias, ou se investem glórias literárias em pintura, por exemplo; e afanosa e a torto e direito se promovem novos e novos valores. Evidentemente há sempre o perigo de se soltar o pé do estribo quando nos lançamos em alucinantes correrias, com os preços a subirem em progressão geométrica e o espectro da inflação à porta. Mas na verdade os perigos não são só o destribamento deste ou aquele cavaleiro. É toda a corrida e o seu sentido que têm que ser examinados. Isso estamos fazendo.

Continuando, vou trazer à vossa apreciação outro elemento que a meu ver pode contribuir de modo decisivo, não só para a salvaguarda e consolidação destes estados de coisas, enfim, destes valores; como de modo decisivo para o bem geral da Nação. Em poucas palavras refiro-me à entrada de Portugal para o Mercado Comum. Num mercado comum, não é preciso ser economista para entender que há dar-e-receber. um mercado é um lugar de trocas, por definição. Ora o que é que nós temos para dar nos termos de um salutar equilíbrio, em troca das máquinas-ferramentas e outros produtos de que o país tanto carece, para além de algum vinho, de alguma cortiça? O que temos para dar sem prejuízo da nossa boa saúde e independência política. e etc.? Pinturas, é evidente. pinturas de excelente qualidade artisanal, garantida aliás por associações reputadas e competentes como a AICA - Secção Portuguesa, e canalizadas por uma organização do mercado sólida e sem aventureirismos. Isto é um facto. mas não chega. Não chegam sobretudo algumas iniciativas particulares que se vão fazendo, no sentido de colocar o produto no mercado estrangeiro, e que de resto, são de saudar. Aquelas que eu conheço são bem orientadas: não pretendem exportar nenhuma vanguarda, nem sequer provocarão a mais pequena onda naqueles meios ditos de vanguarda, lá  de fora, a que já me referi, e isso também é bom: mostrar simplesmente que aqui se produzem objectos artesanais de alto nível, e já à hora francesa, pelo menos. Falo na generalidade, bem entendido. Mas estas iniciativas particulares não chegam; apesar de tudo vamos encontrar concorrência e, como vimos, até nos próprios países importadores.

Por isso proponho um certo número de medidas práticas de grande alcance; - que a AICA averigue porque é que em Portugal não se faz, ou se faz tão pouco hiper-realismo; é o dernier cri da pintura-ao-pincel e até a Espanha já tem hiper-realistas cotados internacionalmente;

- que os marchands se reunam no seio do Fundo de Fomento de Exportação, para estudar uma política orga­nizada e sólida de exportações;

- que os artistas unam os seus esforços (não deixando de ser individualistas, claro está, não esquecer que se trata de produtores de obras únicas). Mas, quanto a organização junto de instituições como a Associação Industrial Portuguesa e o lnstituto Nacional de Investigação Industrial podem ser de um concurso precioso.

- que o Secretariado Nacional de Informação e Tu­rismo, juntamente com todos os organismos particulares e públicos já mencionados estude já as medidas concretas para modificar toda a nossa propaganda turística; de modo a que se insinue em profundidade e em todo o mundo a ideia de que Portugal, sim, é que é o passado, com suas relíquias, originais e autênticas. Tudo isto evi­dentemente tem que ser feito com extrema subtileza. Não esquecer que se trata de manter e até se possível fazer subir as cotações de uma verdadeira indústria de qualidade. Nada de slogans popularuchos como:

Portugal, país do Sol, dos Touros e dos Pintores!

Nada disso: tem que ser uma propaganda inteligente e sincera relativa­mente ao seu objecto. Tem que ser uma propaganda de pessoas conscientes de que - em qualquer situação,­ relíquias são relíquias, e a terra que as fornece é terra de missão, é terra santa.

Em resumo: todas estas operações que proponho não devem deixar-se levar por um qualquer oportunismo ou por má consciência. Pelo contrário, elas devem contribuir para inculcar aos outros e a nós próprios, esta emocional verdade: Portugal voltou a ter uma grande missão no concerto das nações:

FORNECER O ANTIGO (ainda que sob espécies aliciantes, e aliciantes porque inesgotáveis, da pintura «moderna») AOS CIDADÃOS DAS URBES ALTAMENTE INDUSTRIALIZADAS E COMPUTARIZADAS; NUMA PALAVRA ACULTURADAS; TÃO LEGITIMAMENTE AVIDOS DE OBRAS ÚNICAS E AUTÊNTICAS. Aqueles cidadãos, «obcecados de standing» na designação justa de Vance Packard, hão-de dizer ao mobilar uma nova casa, um novo escritório: «Já lá tenho um Portugal!» tal como dantes ao acabar de construir e ornamentar um novo templo se dizia: «Já está pronto para o Culto, já lá estão as relíquias!»

Eis, minhas Senhoras e meus Senhores, as minhas propostas promocionais, e o seu alcance.

Muito obrigado pela vossa atenção. Tenho dito.

E.S.

Publicada na Revista Colóquio-Artes, 1975




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